.

.

Vazio

Eu posso.
Eu disfarço a face do tédio
Eu refaço na boca a palavra
 – que não sai.
A palavra.
Mastigada no silêncio reclama
ainda o tempo de contar vazios.

Eu espero
no disfarçe do tédio, o tempo.
Pra colher do silêncio da alma
o silêncio da causa
e remendar vazios.

Eu vazio.
No remendo refaço o tédio
e no espaço de tempo espero
uma palavra pra assassinar
silêncios.




Frases em mim - 
palavras acolhidas para corar
a face fria da barbárie
já não funcionam.

O mistério que ilumina
a face das coisas sagradas
e promove o silêncio
na boca do mundo
se despe.

E sem matéria-prima
entre fronteiras,
recolho-me nua,
no nada.

Pra lembrar que a vida...


Mesmo quando em frente ao espelho
a gente sente devagar
o correr do tempo em traças
corroer as nossas faces,
a canção da vida insiste
em nos embalar,
em nos fazer sonhar
com a eternidade.
E quando atinge a  vida o teu fim,
ela prevalece nos ouvidos da memória
superando como a música
o silêncio da saudade
daquele que vem e parte
para um infinito possível.
E em cada nota retomada
no palco do tempo passado,
a gente alcança em despedida
as vidas de nossas vidas
as vidas de outras vidas
em sinfonia memorável.

Trilhas, curvas, vias: um encontro

Ele e ela, perceberam-se de olhos fechados
ao anúncio do toque dos lábios.
E no impacto das coisas que fundem
compreenderam a lógica dos acasos.

Inspirando-se na dinâmica das danças,
fez-se a boca palco de improvisos.
E concebeu-se ali mesmo a presença
enigmática do movimento dos ritos.

- É a vida que se converte aos encantos
  das sereias e de seus turvos cantos
  que quando acordam seus acordes desviam
  a lucidez dos sentidos mais humanos.

E das suas bocas nasceram rios
e dos rios nasceram vida
inundando-as do começo ao fim
de curva em curva a cada trilha.

E no espaço reduzido com o tempo
brotou-se de repentino silêncio
dedos que inauguraram cadentes
o trépido toque dos tatos.

E dos seus dedos, pernas nasciam
e das suas pernas, bocas e olhos
e das suas bocas, mãos e cabelos
e nos cabelos dissolveram-se as horas
desprendidas da órbita dos tempos.

Biografia


Meninas esperam
que a voz chegue
como anúncio
de:
canções que não toquem na pele como produto.

A menina de muitas outras meninas
desistirá da propaganda
em que o desejo desejado
educado for pra ser
e servir
mercadorias:

saltos altos que mancam
sobre bonecas entulhadas
serão colhidos para darem é passagem
à travessia descalça de sentir
a vida
o chão
conforme a intensidade de suas flores e pedras.

Prever os caminhos
por onde se escondem
e se revelam
quereres
sem depender da espera
por um cartão postal remoto
de um príncipe que-se-quer-existe.

Nossas meninas que somos
sofremos nas faces
com as cicatrizes
do tempo dos reis:

os retrovisores e espelhos
e toda a representação
nos dizem que são
nossas faces
nossos corpos
só produtos do amor,

mas faremos
nosso reinado
na morada do corpo

namorando
cada passo e curva
que o coração possa guiar pulsando
como a cadência da resistência das asas
que abrem caminhos no vento.



Tanta gente nessa solidão...

De repente a gente tem a impressão
de que, no meio da multidão
a solidão é coisa à toa:
covarde mito da cidade...

Mas...
Quando saio de casa a destino
logo sou atingido
pelo medo da vida dos outros.
O "bom dia" amanhece calado
na boca hostil da manhã.

Olhares generosos
calados de compaixão
flertam com o chão.
E com ele,
trocam impressão
de surda cumplicidade.

E percebo na verdade
é que estamos lado a lado
caminhando solidários...
à uma mesma solidão.

Tantopoucotempo

São nas vezes que não para
o ponteiro que se agita,
que eu penso em um refúgio
pra cabeça, corpo e vida:

Um tempo pra prece que cala a pressa infinita.
Um tempo de colher o tempo, tempo gasto sem medida.
Um tempo de mel no fel  que me cobre de breu.
Um tempo de colher na praça a flor do bem meu.
Um tempo descalço na rua do asfalto que queima
Um tempo de sol na ladeira, na cara, na vida que reina.
Um tempo de bola jogada, um gol que se queira.
Um tempo de ver a beleza no véu de fumaça ligeira.
Um tempo  de ouvir as conversas largadas no largo São Bento.
Um tempo pra's cores lançadas pelos viadutos inteiros
Um tempo pra vida ambulante que oferta desejos,
Um tempo pra ver a passagem dos carros sem freios.
Um tempo pra ouvir na rima do som que me alcança - o tom dos ponteiros
Um tempo ao som da batida do peito, soul Sampa - sem paradeiro.

ana tereza barboza

ana tereza barboza
Grafito y bordado en tela. 130 x 102 cm (2011)