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Gênese do Vento


O ar que vem de lá do cais
refaz  lembranças nos varais
tão leve trás pelos quintais
o desfiar da velha infância.

O vento em curva faz ciranda
sob os beirais de minha memória,
e vem de outrora aquela dança
do tempo brando sem demora.

Brando encanto da corda que roda
que por hora não cessa o rodar,
como a bola que no campo volta
e vai e rola sobre a luz do luar.

O ar que vem de lá me trás,
mas vai e volta de onde veio.
E me deixa o tempo - esse sem freio
a me fabricar pósteras lembranças

O que não morde

Em cima do telhado
gatos vários se escondem,
mas pelas janelas dos prédios defronte
escondem-se outros cães silenciosos.

O cão não late, ele canta o silêncio de ser cão.

No fundo de cada coração um cão late emudecido.
Um cão emudece o latido de outros cães também.
Todos os cães são amigos do silêncio que compartilham.
O silêncio é a comunicação da vida de cão.
Cães caçam nas paredes sombras de outros cães
e se descobrem diferentes na forma e iguais na condição.
Cães tem um coração que custa o preço do que come.
Não falta comida para os cães de dormitório:
dormem e comem na solidão da civilização.

Recortes


E no silêncio a vida evoca
toda nota comentada
das histórias que a memória
preservou enquanto íamos

naquele dia

caminhando em silêncio,
reescrevendo...
outras lembranças recordando,
outras andanças...
outras notas,
outros ventos que

naquele dia armazenou

no lar do coração
que hospeda,
tanta coisa
recortada
a ser lembrada,

pois a vida,
a vida é toda recordada
nos recortes
que deixamos
espalhados no caminho
de retorno para casa.

Marégente


Na catraca se atraca a massa - 
corpos, mãos, pernas, traças - 
se destrava a trava
e estancada passa
a vida em um tempo só.

Levada no laço ludibriada,
a calma na alma não encontra lugar
e lá no espaço do aperto do peito
cansaço sussurra : - fuga pra já.

Fuga pr'o mar do lar na cama
ou na praça colher na dança
das folhas  as outras danças
do tempo par pra respirar.

Mas do rodar da catraca parte
pra locomotiva de ferro e carne,
corpo de gente que invade e parte
pra outra margem do mar de lá.

Mar de gente sempre mais.
Gente demais  é mar.
De mais gente o mar se faz.
Desfaz gente, refaz mar.

Saída


Os lençóis ao pé da cama
inundam o quarto com amor,
 estampas multiformes
e tropeços de partida.

Feito lona que desaba
de um circo quando o adeus
se anuncia no apito
enfraquecido do palhaço.

Há uma réstia de friagem
que perpassa  a portaria
que dá acesso ao vale triste
dos finais de meia-noite.

E com cautela o vento move
a cortina, o fio e o laço,
e se perde pelo espaço
enrugado  entres os lençóis.

Céu de lona azul


Ontem era maio,
hoje já não faz frio.
Do lado de fora
me perco na velocidade dos passos.

Um sol aparece
e a vida sorri por dentro.
Um sorriso largo de pavor
de não ter como voltar ao tempo.

Que tempo é esse que não nos permite sentir?
- Sua carroça de oferendas passa.
Propagandeia o presente para depois partir?

Janeiro se foi,
já não faz calor.
Faz frio que agride
os pés e as mãos

- Ah! Se não fosse o amor...
já seríamos deserto.
Secaríamos, ao certo,
por esperas pluviais
em um céu de lona azul.

Passando


Um homem caminha e sabe:
seus sapatos não conhecem a crise.
Seus sapatos sustentam apenas,
o peso da existência móvel.

O homem para, olha e pasma,
os espelhos, quando muitos, cegam.
De repente se torna moderno
e se vê multiplicado em mil.

Um homem que na praça passa
não percebe o lamento do tempo das árvores,
da ordem das gentes de praça
que rodeiam os bancos como pombos.

ana tereza barboza

ana tereza barboza
Grafito y bordado en tela. 130 x 102 cm (2011)