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vermelha

quis até ver
esse foco nos meus olhos

e esses olhos:
uma interdição pulmonar,
senão um cansaço
          uma desfibrilação
          uma sujeição maior ao que me peca

uma boca ansiosa
ambiciona sussurros
mas quieta interpõe
soluço de constranger
catedrais

ais

me movo à mente e minto a cara –
disfarçaria melhor com óculos,
mas o que tenho não passa
de uma capa de livro vermelha
a rua vazia
a casa maior
um som largo de cortina em dança
uma cama arquitetada pelas ondulações do vento

distribuo os papéis aos dedos e os dedos rejeitam
o formato das margens o espaçamento das linhas
a norma contraceptiva do verbo cativo
até a precisão dos metros quadrados
que o meu corpo ocupa
não entra na conta da tarde

só o sombrear silencioso dos olhos
rastreia no avesso do corpo
a forma livre que almejo em verso

a casa maior a cada passo adentro
e nada tenho eu desse espaço de fora.

que pisca

olhos
em estado de artificio
na face assim
como um vidro
fixos são
seita oculta
que a natureza maquinal avulta
a cada outdoor que pisca.

Vazio

Eu posso.
Eu disfarço a face do tédio
Eu refaço na boca a palavra
 – que não sai.
A palavra.
Mastigada no silêncio reclama
ainda o tempo de contar vazios.

Eu espero
no disfarçe do tédio, o tempo.
Pra colher do silêncio da alma
o silêncio da causa
e remendar vazios.

Eu vazio.
No remendo refaço o tédio
e no espaço de tempo espero
uma palavra pra assassinar
silêncios.




Frases em mim - 
palavras acolhidas para corar
a face fria da barbárie
já não funcionam.

O mistério que ilumina
a face das coisas sagradas
e promove o silêncio
na boca do mundo
se despe.

E sem matéria-prima
entre fronteiras,
recolho-me nua,
no nada.

Pra lembrar que a vida...


Mesmo quando em frente ao espelho
a gente sente devagar
o correr do tempo em traças
corroer as nossas faces,
a canção da vida insiste
em nos embalar,
em nos fazer sonhar
com a eternidade.
E quando atinge a  vida o teu fim,
ela prevalece nos ouvidos da memória
superando como a música
o silêncio da saudade
daquele que vem e parte
para um infinito possível.
E em cada nota retomada
no palco do tempo passado,
a gente alcança em despedida
as vidas de nossas vidas
as vidas de outras vidas
em sinfonia memorável.

Trilhas, curvas, vias: um encontro

Ele e ela, perceberam-se de olhos fechados
ao anúncio do toque dos lábios.
E no impacto das coisas que fundem
compreenderam a lógica dos acasos.

Inspirando-se na dinâmica das danças,
fez-se a boca palco de improvisos.
E concebeu-se ali mesmo a presença
enigmática do movimento dos ritos.

- É a vida que se converte aos encantos
  das sereias e de seus turvos cantos
  que quando acordam seus acordes desviam
  a lucidez dos sentidos mais humanos.

E das suas bocas nasceram rios
e dos rios nasceram vida
inundando-as do começo ao fim
de curva em curva a cada trilha.

E no espaço reduzido com o tempo
brotou-se de repentino silêncio
dedos que inauguraram cadentes
o trépido toque dos tatos.

E dos seus dedos, pernas nasciam
e das suas pernas, bocas e olhos
e das suas bocas, mãos e cabelos
e nos cabelos dissolveram-se as horas
desprendidas da órbita dos tempos.

ana tereza barboza

ana tereza barboza
Grafito y bordado en tela. 130 x 102 cm (2011)